Depois de um período minúsculo de estágio, a pergunta que não sai da minha cabeça é: afinal de contas, a
quem o professor atende? Os mais apressadinhos talvez achem que a resposta mais óbvia é: "Aos alunos,
claaaro!". Pois bem, se tem uma coisa que eu não consegui fazer com minha turma de estágio foi isso.
Não pense você, caro(a) leitor(a), que sou uma professora que dirige as aulas com mãos de ferro e que
não acredita que os alunos tenham o direito de se expressar, ou ainda, que não considere seus conhecimentos... A questão é que você chega a uma escola super animada achando que vai sacudir o mundo (ingenuidade pura, eu sei...) e se depara com um o seu sonho em preto e branco, ou melhor branco, totalmente branco. Na verdade, concordando ou não com as práticas da instituição em que se atua, somos obrigados a nos enquadrar, em vários aspectos, para que seja possível atuar com um mínimo de cooperação e organização. A questão poderia ser melhor superada caso não houvessem outras expectativas a serem sanadas além da obediência às normas institucionais que poderiam ser bem mais flexíveis (mas ainda assim necessárias e obrigatórias).
Existe, ainda, uma segunda questão a ser superada, a expectativa e a cobrança dos pais dos alunos. Como é
possível que um pai acredite que seu filho está, de fato, se desenvolvendo e evoluindo se ele olha o caderno do aluno e não enxerga páginas e mais páginas de cópias e tarefas? Afinal de contas, estamos acostumados a valorizar "a produção". No caso da escola, basicamente a produção escrita. Que escrevam, escrevam, escrevam... Podem screver sem saber o porquê, sem entender para que serve a linguagem escrita, sem entender o que copiam do livro ou do quadro mas que escrevam. Este é o tipo de pensamento que predomina ainda hoje nas salas de aula.
Reclama-se da indisciplina e do desrespeito dos alunos. "Remedia-se" o problema com um segundo problema. De alunos indisciplinados, passam a robôs programados para repetir tudo o que lhe é oferecido sem que haja um mínimo de reflexão crítica.
Criticidade, outro ponto esquecido pela escola. Para que iriam querem alunos críticos, não é mesmo? Alunos críticos tornariam tudo mais complicado, demorado. E no mundo atual tudo o que queremos é achar o caminho mais curto e mais fácil... Mas cheguemos ao próximo ponto a ser superado pelo profissional da educação.
O terceiro ponto é a de conseguir envolver, para início de conversa, o grupo com o qual se está trabalhando, no intuito de estabelecer elos, construir uma relação durante o processo de "aprendizagem-ensinagem" mútua (que isso fique bem claro!!!!). Esta construção não ocorre do dia para a noite, é um processo lento, porém crucial e eu me atrevo a dizer que esta é uma das principais funções desempenhadas pela escola: a socialização. É a partir dela que o aluno poderá começar a se desenvolver realmente como sujeito.
Foram citadas anteriormente apenas algumas das facetas encaradas pelo professor. Ninguém achou que seria simples mas em que lugar o profissional "acomoda" suas próprias idéias e opiniões? Se ele conseguir engolir alguns sapos, ultrapassar e desviar dos alguns obstáculos encontrados pelo caminho, apresentar-se-á (me puxei na conjugação gora) a maior dificuldade: adaptar o sonho à realidade.
Todos esperamos que os salários sejam mais justos, que os métodos de ensino e avaliação sejam mais abrangentes, que todos consigamos nos manter em constante formação, enfim, que seja possível atender às expectativas... Bem, talvez o ponto de equilíbrio esteja em pararmos de acreditar que somos os responsáveis pela queda ou ascensão de um sujeito... Por mais que a sociedade exerça certa pressão em relação à imagem do professor, a pior cobrança vem do próprio educador. Isto não significa que devamos nos acomodar e parar de acreditar que podemos fazer diferença mas o verdadeiro desafio está em assumir o papel e a responsabilidade que nos cabe na medida exata.
